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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

CAPÍTULO 17 - Lágrimas de Dor


Ouçam esta música para ler o capítulo: Hero - Mariah Carey 
[Flashback] - Narrado por Liam:
Naquela noite eu não dormi, chorei como um condenado. Sabia que meu filho estava morto por minha causa e não conseguia aceitar. Queria me matar deitado á cama do hospital. Ferido, cortado, machucado e dolorido. Uma sonda levava o líquido incolor do saquinho a minha veia. Tudo veio á minha mente. Fechei meus olhos e pude ouvir os gritos ardidos, finos e agonizantes de Miley ao fundo. Lembre-me de como foi conhecê-la, como havia sido o primeiro almoço com os pais dela, lembrei como foi difícil e doloroso ver ela sofrer dias após o estupro. Lembrei-me também de como foi ver Paulo rejeitar meu filho no ventre de sua filha. Ele me olhava como se quisesse me matar, sonhava com ele espancando Miley até matar o bebê, era horrível a reação que ele tinha.
O mais difícil pra mim, foi ver meu filho morrer diante de mim. A vontade era levantar da maca e pedir perdão a ele, beijá-o, abraça-o e não deixar ninguém tirá-o de mim. Havia um motivo para toda a tragédia, mas Nathan não tinha culpa. Ele mal sabia falar, nem pode descobrir as coisas boas da vida, comer algo muito gostoso, nem ter amigos. Lágrimas escorriam de meus olhos quando lembrava do sorriso dele, da doce voz que ele tinha, do olhar atencioso e esperto, que saudades do meu filho. Todo plano de vida que havia escrito estava destruído. Nunca vou poder ensinaá-lo a jogar bola ou soltar pipa. Caminhar com Nathan ao meu lado, passeando por todo o bairro. Talvez pudesse vê-lo crescer e se formar numa faculdade, mas não, era impossível agora. Ele não respirava mais, seu coração já não batia, ele já não existia.
Sentia-me fraco, inútil, desgraçado. Destruí meu maior tesouro, a razão do meu viver. Ver a mulher que eu amava ali, com um sujeito sobre ela foi inaceitável. Talvez fosse melhor resolver de forma mais simples, Nathan não precisava perder a vida por isso, ele nem entendia o que era viver, se não fosse por nós, jamais sobreviveria sozinho no mundo. Crianças são inocentes, puras, limpas de tudo. Não entendem muita coisa, mas guardam cada palavrinha que os adultos falam.  Infelizmente eu não veria mais essa alegria, os passinhos dele correndo pela casa, nem músicas de criança na minha cabeça o tempo todo, brinquedos, fraldas e marcas de mãozinhas nos móveis. Era triste, o choro me consumia, a dor que meu coração sentia era imensa, parecia com uma facada. Meu rosto estava vermelho e eu gritava feito um louco. Queria meu filho de volta, sabia que depois dali seria punido por isso. Devia ter focado na vida dele que estava a bordo e fui incapaz de notar isso.
O nascimento de Nathan foi marcante pra mim, pois enquanto Miley o carregava, eu passava meus dias acariciando ela. Mesmo com pavor de ver pessoas sofrendo, tive que me manter forte pra ver filho nascer. Foi ruim vê-la se contorcer na cama do hospital, parecia que tinha algo no corpo dela, a pele avermelhada, veias saltadas e gritos de dor. Foi doído e mágico, o dia mais feliz da minha vida, que eu mesmo destruí. Dissemos “sim” um ao outro diante o altar e prometemos nos amar e respeitar, até que a morte nos separe, e parece que não foi possível pra ela, talvez porque tenha muito a viver, ou não sinta mais nada por mim.
Talvez eu tenha destruído até os sonhos dela. Lembro que quando vi Miley pela primeira vez, conversamos sobre a vida e ela me disse naquele tempo que queria se formar em medicina veterinária. Nada disso aconteceu e tão jovem já se tornou uma moça casada, mãe e sentia agora a dor de perder o filho. Tudo mudou desde quando ela descobriu a gravidez. Antes vivia negando o bebê e entrando no mundo de desprezo de seu pai, mas graças a Deus eles vieram a aceitar. Sentia um peso dentro de mim, talvez angústia ou dor. Talvez a raiva de ter sido traído por quem eu mais amava e confiava. A vida não era fácil, meus pais tinham razão quando me disseram isso enquanto eu era pequeno. Eles diziam que temos que fazer o certo hoje, para o melhor vir amanhã e eu desacreditei, pensei que ganhar dinheiro seria melhor, mas não, deveria ter escutado.
Infelizmente o tempo não volta atrás e após pensar em tudo isso, abri meus olhos lentamente e pude sentir profundamente o ar hospitalar, o mal cheiro de gases. Foi a madrugada mais longa, triste e pertubadora da minha vida, nunca sofri tanto, não chorava assim desde que Nathan nasceu, mas naquele tempo foi de alegria e hoje é de perda. Voltei a fechar meus olhos, chorando de soluçar e pedi perdão a Deus por tudo, orei pela vida de meu filho, que a alma pequena e pura dele fosse levada aos céus e que Deus cuidasse dele eternamente. Nathan era um anjo agora, meu anjinho. 

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