Ouçam esta música para ler o capítulo: Hero - Mariah Carey
[Flashback]
- Narrado por Liam:
Naquela
noite eu não dormi, chorei como um condenado. Sabia que meu filho estava morto
por minha causa e não conseguia aceitar. Queria me matar deitado á cama do
hospital. Ferido, cortado, machucado e dolorido. Uma sonda levava o líquido
incolor do saquinho a minha veia. Tudo veio á minha mente. Fechei meus olhos e
pude ouvir os gritos ardidos, finos e agonizantes de Miley ao fundo. Lembre-me
de como foi conhecê-la, como havia sido o primeiro almoço com os pais dela,
lembrei como foi difícil e doloroso ver ela sofrer dias após o estupro.
Lembrei-me também de como foi ver Paulo rejeitar meu filho no ventre de sua
filha. Ele me olhava como se quisesse me matar, sonhava com ele espancando
Miley até matar o bebê, era horrível a reação que ele tinha.
O mais
difícil pra mim, foi ver meu filho morrer diante de mim. A vontade era levantar
da maca e pedir perdão a ele, beijá-o, abraça-o e não deixar ninguém tirá-o de
mim. Havia um motivo para toda a tragédia, mas Nathan não tinha culpa. Ele mal
sabia falar, nem pode descobrir as coisas boas da vida, comer algo muito
gostoso, nem ter amigos. Lágrimas escorriam de meus olhos quando lembrava do
sorriso dele, da doce voz que ele tinha, do olhar atencioso e esperto, que
saudades do meu filho. Todo plano de vida que havia escrito estava destruído.
Nunca vou poder ensinaá-lo a jogar bola ou soltar pipa. Caminhar com Nathan ao
meu lado, passeando por todo o bairro. Talvez pudesse vê-lo crescer e se formar
numa faculdade, mas não, era impossível agora. Ele não respirava mais, seu
coração já não batia, ele já não existia.
Sentia-me
fraco, inútil, desgraçado. Destruí meu maior tesouro, a razão do meu viver. Ver
a mulher que eu amava ali, com um sujeito sobre ela foi inaceitável. Talvez
fosse melhor resolver de forma mais simples, Nathan não precisava perder a vida
por isso, ele nem entendia o que era viver, se não fosse por nós, jamais
sobreviveria sozinho no mundo. Crianças são inocentes, puras, limpas de tudo.
Não entendem muita coisa, mas guardam cada palavrinha que os adultos
falam. Infelizmente eu não veria mais
essa alegria, os passinhos dele correndo pela casa, nem músicas de criança na
minha cabeça o tempo todo, brinquedos, fraldas e marcas de mãozinhas nos
móveis. Era triste, o choro me consumia, a dor que meu coração sentia era
imensa, parecia com uma facada. Meu rosto estava vermelho e eu gritava feito um
louco. Queria meu filho de volta, sabia que depois dali seria punido por isso.
Devia ter focado na vida dele que estava a bordo e fui incapaz de notar isso.
O
nascimento de Nathan foi marcante pra mim, pois enquanto Miley o carregava, eu
passava meus dias acariciando ela. Mesmo com pavor de ver pessoas sofrendo,
tive que me manter forte pra ver filho nascer. Foi ruim vê-la se contorcer na
cama do hospital, parecia que tinha algo no corpo dela, a pele avermelhada,
veias saltadas e gritos de dor. Foi doído e mágico, o dia mais feliz da minha
vida, que eu mesmo destruí. Dissemos “sim” um ao outro diante o altar e prometemos
nos amar e respeitar, até que a morte nos separe, e parece que não foi possível
pra ela, talvez porque tenha muito a viver, ou não sinta mais nada por mim.
Talvez
eu tenha destruído até os sonhos dela. Lembro que quando vi Miley pela primeira
vez, conversamos sobre a vida e ela me disse naquele tempo que queria se formar
em medicina veterinária. Nada disso aconteceu e tão jovem já se tornou uma moça
casada, mãe e sentia agora a dor de perder o filho. Tudo mudou desde quando ela
descobriu a gravidez. Antes vivia negando o bebê e entrando no mundo de
desprezo de seu pai, mas graças a Deus eles vieram a aceitar. Sentia um peso
dentro de mim, talvez angústia ou dor. Talvez a raiva de ter sido traído por
quem eu mais amava e confiava. A vida não era fácil, meus pais tinham razão
quando me disseram isso enquanto eu era pequeno. Eles diziam que temos que
fazer o certo hoje, para o melhor vir amanhã e eu desacreditei, pensei que
ganhar dinheiro seria melhor, mas não, deveria ter escutado.
Infelizmente
o tempo não volta atrás e após pensar em tudo isso, abri meus olhos lentamente
e pude sentir profundamente o ar hospitalar, o mal cheiro de gases. Foi a
madrugada mais longa, triste e pertubadora da minha vida, nunca sofri tanto,
não chorava assim desde que Nathan nasceu, mas naquele tempo foi de alegria e
hoje é de perda. Voltei a fechar meus olhos, chorando de soluçar e pedi perdão
a Deus por tudo, orei pela vida de meu filho, que a alma pequena e pura dele
fosse levada aos céus e que Deus cuidasse dele eternamente. Nathan era um anjo
agora, meu anjinho.







1 comentários:
Me fez chora :(
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